A outra face do perdão

A outra face do perdão

Já perdi a conta de quantas vezes me perguntei o que é perdoar. Ouvi certa vez de alguns amigos: “você sabe que perdoou quando não sofre mais ao lembrar do ocorrido”. Talvez haja verdade nisso. Mas sinto que o perdão é ainda mais profundo.

Em “Escrínio de Luz”, livro psicografado por Chico Xavier, Emmanuel nos diz que o “Perdão é a possibilidade de trabalhar no resgate de nossas próprias faltas. É a luz do arrependimento que nos clareia a estrada, ainda mesmo depois de nos arrojarmos às trevas interiores. É o ar que respiramos, generoso e puro, mesmo além do nosso gesto que maculou a simplicidade da Natureza.”

Tantas são as passagens nas quais Jesus nos ensina sobre o perdão. “Perdoa setenta vezes sete”, disse ele a Pedro, ao ser questionado se sete vezes seriam suficientes para perdoar um inimigo. Em Mateus, também nos orienta: “Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e depois virás fazer tua oferta”, sinalizando, portanto, que a oferta mais valiosa para Deus é o perdão.

Mas gostaria de ressaltar aquele que considero ser o maior ensinamento do Mestre: “Ama o próximo como a ti mesmo”. Jesus veio à Terra para nos ensinar o poder do Amor — definitivamente não há força maior. Contudo, para amar o próximo, é preciso antes aprender a olhar para si mesmo com misericórdia.

Somos todos espíritos em evolução, ainda profundamente imperfeitos e, consequentemente, extremamente passíveis de erros. Ora, se nós falhamos tantas vezes, por que nossos irmãos de jornada terrena não falhariam também?

Entretanto, muitas vezes temos dificuldade em perdoar não apenas o outro, mas principalmente a nós mesmos. Quantas vezes pensamos, dissemos ou ouvimos alguém dizer: “não vou me perdoar nunca” ou ainda “não vou te perdoar nunca”? Alguns acreditam que conceder perdão a quem nos feriu é sinal de fraqueza. Temem parecer tolos, ingênuos, bobos. Quanto orgulho existe nisso, não é mesmo?

Penso que boa parte de nossas mágoas reside justamente no ego ferido. Outras nascem da frustração de percebermos que as pessoas não são ou não agem como gostaríamos; da dor silenciosa de vê-las diferentes das projeções que criamos para elas.

Então carregamos a mágoa e a raiva como uma bola de ferro acorrentada aos pés. Um peso que arrastamos pela existência e que nos impede de seguir mais livremente pela trilha evolutiva.

Quantas obsessões — arrisco dizer, talvez a maioria — nascem justamente de mágoas e rancores cultivados ao longo de séculos, atravessando existências sucessivas. Deus, em sua infinita misericórdia e sabedoria, permite-nos retornar à Terra para conviver novamente, muitas vezes através de laços sanguíneos e fraternos, com aqueles que nos ofenderam ou a quem ofendemos. Concede-nos, assim, a bendita oportunidade de reconstruir afetos, reparar feridas e reaprender o amor.

Perdoar é um ato de caridade. É libertar a si e ao outro de fluidos e energias deletérias. É um sagrado remédio para os males da mágoa e do rancor e, portanto, fundamento indispensável da nossa evolução espiritual.

Talvez a outra face do perdão seja justamente essa: compreender que todos nós, sem exceção, estamos apenas aprendendo.

Quelen Torres é voluntária na ABC Espírita Batuira em Sorocaba.

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