Livre arbítrio
Para nós espíritas, seguidores da doutrina reconhecemos que os nossos atos praticados não foram pré-determinados, e sim resultados das nossas próprias escolhas.
Na questão 115 do Livro dos Espíritos nos mostra que Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes, quer dizer, sem conhecimento.
Assim, o livre arbítrio, ou seja, a nossa capacidade de escolha, é desenvolvida juntamente com a evolução da nossa inteligência e implica um aumento da nossa responsabilidade pelos atos praticados. Na medida que evoluímos moralmente pela aplicação do nosso conhecimento em boas obras e mudança de comportamento e atitude, também crescemos na nossa capacidade de fazer boas escolhas.
Se analisarmos os 66 livros que compõe a Bíblia não encontraremos a expressão “livre arbítrio”, entretanto em diversas passagens verificamos que Deus dá o poder de escolha ao ser humano, fruto de sua criação. Também a Bíblia nos mostra que cada ser humano vai prestar contas da forma como usa seu livre arbítrio, ou seja, somos responsabilizados pelos nossos atos.
Filosoficamente, o livre arbítrio se opõe ao determinismo, que sustenta que todos os acontecimentos são causados por fatos anteriores, isentando o ser humano da responsabilidade dos seus próprios atos.
Santo Agostinho, muitas vezes citado no Livro dos Espíritos e em outras obras do Pentateuco de Allan Kardec, escreveu no ano 395 D.C. a obra Livre Arbítrio (De Libero Arbitrio). Nesta obra, ele aborda algumas questões da liberdade humana e a origem do mal moral. A expressão “Livre Arbítrio” muitas vezes é entendida com o mesmo significado que a expressão de liberdade, entretanto ele nos esclarece que são dois conceitos diferentes. O primeiro é a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, enquanto o segundo “liberdade” é o bom uso do livre arbítrio; que é um dom de Deus para o seu melhoramento moral segundo a sua vontade. É a utilização consciente da liberdade dirigida pela vontade. Para ele o mal não é uma criação de Deus, mas sim a ausência do bem. O Livre Arbítrio é a origem do mal humano, ou seja, nas escolhas feitas pelos humanos ao se distanciarem de Deus.
Implicações práticas para o bom uso do nosso livre arbítrio, destacamos:
- Responsabilidade: Somos responsáveis por nossas escolhas e suas consequências ao longo do tempo e de sucessivas reencarnações.
- Escolhas: Nossas escolhas para o caminho do bem devem estar orientadas para os ensinamentos de Jesus e o entendimento da Doutrina Espírita.
- Progresso Espiritual: O espírito avança mais rapidamente ao fazer escolhas alinhadas com o bem e com a lei divina que se encontra na nossa consciência (Livro dos Espíritos questão 621).
- Conhecimento: A libertação da escravidão das paixões e dos vícios se dá através do livre arbítrio, substituindo a inclinação dos instintos pela razão.
“O livre-arbítrio é um conceito complexo com diferentes interpretações. Ele se refere à autonomia na tomada de decisões, mas sua existência e natureza são questionadas pela ciência e filosofia através de debates sobre determinismo, consciência e a influência de fatores biológicos e ambientais. As visões religiosas geralmente defendem o livre-arbítrio como uma faculdade fundamental concedida aos seres humanos”. ( Informação segundo pesquisa Inteligência Artificial I A )
Para nós Espiritas não podemos deixar de recorrer ao Livro dos Espíritos nas questões 843 a 850 sobre o tema.
843. O homem tem livre arbítrio nos seus atos?
— Pois se tem a liberdade de pensar, tem a de agir. Sem o livre arbítrio o homem seria uma máquina.
844. O homem goza do livre arbítrio desde o nascimento?
— Ele tem a liberdade de agir, desde que tenha a vontade de o fazer. Nas primeiras fases da vida a liberdade é quase nula; ela se desenvolve e muda de objeto com as faculdades. Estando os pensamentos da criança em relação com as necessidades da sua idade, ela aplica o seu livre arbítrio às coisas que lhe são necessárias.
845. As predisposições instintivas que o homem traz ao nascer não são um obstáculo ao exercício do seu livre arbítrio?
— As predisposições instintivas são as do Espírito antes da encarnação; conforme for ele mais ou menos adiantado, elas podem impeli-lo a atos repreensíveis, no que ele será secundado por Espíritos que simpatizem com essas disposições; mas não há arrastamento irresistível, quando se tem a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder. (Ver item 361).
846. O organismo não influi nos atos da vida? E se influi, não o faz com prejuízo do livre arbítrio?
— O Espírito é certamente influenciado pela matéria, que pode entravar as suas manifestações. Eis porque, nos mundos em que os corpos são menos materiais do que na Terra, as faculdades se desenvolvem com mais liberdade. Mas o instrumento não dá faculdades ao Espírito. De resto, é necessário distinguir neste caso as faculdades morais das faculdades intelectuais. Se um homem tem o instinto do assassínio, é seguramente o seu próprio Espírito que o possui e que lho transmite, mas nunca os seus órgãos. Aquele que aniquila o seu pensamento para se ocupar apenas da matéria faz-se semelhante ao bruto, e ainda pior, porque não pensa mais em se premunir contra o mal. É nisso que ele se torna faltoso, pois assim age pela própria vontade. (Ver item 367 e seguintes, Influência do organismo).
847. A alteração das faculdades tira ao homem o livre arbítrio?
— Aquele cuja inteligência está perturbada por uma causa qualquer perde o domínio do seu pensamento, e desde então não tem mais liberdade. Essa alteração é frequentemente uma punição para o Espírito que, numa existência, pode ter sido vão e orgulhoso, fazendo mau uso de suas faculdades. Ele pode renascer no corpo de um idiota, como o déspota no corpo de um escravo e o mau rico no de um mendigo. Mas o Espírito sofre esse constrangimento, do qual tem perfeita consciência: é nisso que está a ação da matéria. (Ver item 371 e seguintes).
848. A alteração das faculdades intelectuais pela embriaguez desculpa os atos repreensíveis?
— Não, pois o ébrio voluntariamente se priva da razão para satisfazer paixões brutais: em lugar de uma falta, comete duas.
849. Qual é, no homem em estado selvagem, a faculdade dominante: o instinto ou o livre arbítrio?
— O instinto, o que não o impede de agir com inteira liberdade em certas coisas. Mas, como a criança, ele aplica essa liberdade às suas necessidades e ela se desenvolve com a inteligência. Por conseguinte, tu, que és mais esclarecido que um selvagem, és também mais responsável que ele pelo que fazes.
850. A posição social não é às vezes um obstáculo à inteira liberdade de ação?
— O mundo tem, sem dúvida, as suas exigências. Deus é justo e tudo leva em conta, mas vos deixa a responsabilidade dos poucos esforços que fazeis para superar os obstáculos.
Finalizando, entendemos que esse conceito é complexo e controverso e sem um consenso universal. Alguns estudiosos consideram o livre arbítrio uma ilusão, enquanto para outros dentro de um debate filosófico e científico estabelece a possibilidade de que nossas escolhas sejam determinadas por fatores prévios (determinismo).
Para nós espíritas, o livre arbítrio é uma ferramenta de evolução, onde nossas escolhas geram consequências conforme a lei de causa e efeito. Nosso progresso espiritual assim pode ser aprimorado através de nossas boas decisões conforme nos aproximamos da Lei Divina.
Referências Bibliográficas: O Livro dos Espírito, O Livre Arbítrio de Santo Agostinho e Pesquisa utilizando Inteligência Artificial
Escrito por José Carlos Losada (NECO), Colaborador ABCE BATUIRA

A Lei de Deus é aplicada independente do nosso conhecimento. Então o estudo e o bom senso devem ser sempre aprimorados.
Excelente meu amigo Neco. Palavras que nos levam a reflexão, posicionamento e mudanças. Gratidão por esse compartilhamento.